Paz no Lar

Francinaldo Rafael

Narra o espírito Neio Lúcio, através da psicografia do médium espírita Chico Xavier: "Naquela noite, Simão Pedro tinha o coração amargurado e entristecido. Aborrecera-se com parentes rudes e de difícil trato. O velho tio o acusara de dilapidar os bens da família e um primo o ameaçara esbofetear. Guardava, por isso, o semblante carregado e austero. Procurou o Mestre e desabafou. 

 

Ao término do longo relato, o Mestre indagou: - E que fizeste, Simão, ante a conduta de teus familiares incompreensivos?
Reagi como devia - respondeu apressadamente. - Coloquei cada um no seu lugar, anunciando em alto e bom tom as más qualidades de que são portadores. Meu tio é raro exemplar de sovinice e meu primo é mentiroso contumaz. Provei, perante numerosa assistência, que ambos são hipócritas, e não me arrependo do que fiz - disse Pedro, de forma veemente.


O Mestre refletiu por longos minutos e falou calmamente: - Pedro, o que faz um carpinteiro na construção de uma casa? 
Trabalha, naturalmente - respondeu o discípulo irritadiço. 
Com o quê? - tornou a perguntar o Celeste Amigo.


Usando ferramentas - disse Pedro, sem entender aonde o Mestre pretendia chegar.
Após um breve momento de silêncio, Jesus continuou: - As pessoas com as quais vivemos na Terra são os primeiros e mais importantes instrumentos que recebemos do Pai, para a edificação do reino do céu em nós mesmos. Os parentes difíceis, na maioria das vezes, são o martelo ou o serrote que podemos utilizar a benefício da nossa reforma íntima. Em todas as ocasiões, o ignorante representa para nós um campo de benemerência espiritual; o mau é desafio que nos põe a bondade à prova; o ingrato é um meio de exercitarmos o perdão; o doente é uma lição à nossa capacidade de socorrer. 


Calou-se Jesus e, talvez porque Pedro tivesse ainda os olhos cheios de questionamentos, acrescentou serenamente: - Se não ajudamos ao necessitado de perto, como auxiliaremos os aflitos distantes? Se não amamos o irmão que respira conosco os mesmos ares, como nos consagraremos a Deus que está no céu?

 

Depois dessas perguntas, pairou na modesta sala um expressivo silêncio que ninguém ousou interromper.